Encontros e desencontros (1)
Luis Fernando Verissimo
Do baú. Contam que o papa Leo, para salvar Roma, concordou em ir ao acampamento de Átila, o rei dos Hunos, o Flagelo de Deus cujas hordas cercavam a cidade, para pedir clemência. Átila o recebe na sua tenda roendo o que parece ser um fêmur humano, e com uma salva de gases.
– Átila – diz o papa – este é um encontro histórico. Você sabe o que é a História?
– Sei – diz Átila. – É o que sobra da vida, depois que a vivemos. É lixo.
– O seu latim é muito bom.
O huno mostra o fêmur seboso que acabou de limpar com os dentes.
– Preparei-me para o nosso encontro comendo um dos seus escolásticos. Ruct! Desculpe, o arroto não saiu em latim. Mas, nas suas irrupções, todos os homens falam a mesma língua. As conferências de paz deveriam ser entre os mais mal-educados de cada nação. Talvez seja por isso que nunca dão certo, mandam os diplomatas. Mas você falava da História.
– Este encontro ficará nos anais da nossa História.
– Os hunos não têm anais. Não têm nem um alfabeto. Nossa História é o que contam os nossos velhos, que mentem para disfarçar a falta de memória. São os cavalos que escrevem a nossa história. Ela está nos seus rastros, no que eles deixam para trás. No lixo. Esqueletos, ruínas, mulheres estupradas e gado carneado. Isso quando não estupramos o gado e carneamos as mulheres. Este seu perfume…
– Extrato das glicínias de Roma.
– Ah, Roma.
– Você já a viu?
– De longe. Suspensa no ar, como uma miragem.
– A Rainha das Colinas…
– A Eterna…
– Toda a História do mundo numa cidade só. Todas as cidades do mundo numa cidade só.
– A pilharemos com a devida reverência.
– Você não pode estar falando sério! Por trás desse exterior rude e dessas peles nodosas tem que haver um homem razoável, com sentimentos nobres e um coração altivo.
– Um romano, você quer dizer. Sinto decepcioná-lo, Vossa Redolência, mas não há. Pelo menos não havia, da última vez que tomei banho.
– Roma não é um lugar. Roma é uma idéia, um parâmetro, um sonho, um triunfo do espírito. Roma é a memória e o futuro da humanidade!
– Prometemos só pilhar o que tem valor material. A literatura fica.
– Flagelo, digo, Átila, poupe Roma. Me ofereço em seu lugar. Fique comigo e deixe Roma!
– Obrigado, eu já comi. E Vossa Fragrância me surpreende, apelando à consciência de um bárbaro. Eu não tenho consciência. Eu sou tudo o que Roma não é. Me atribuir uma consciência, Vossa Untuosidade, é diminuir a glória de Roma, pois Roma só é grande em contraste com seus inferiores. A não ser…
E Átila cutuca o Papa com a ponta do fêmur.
– A não ser que vocês reconheçam que não são muito diferentes de nós. Hein? Hein? Que por trás desse exterior engomado e desses panos bordados tem que haver um Átila adormecido. Que vocês, apesar do extrato de glicínias, também não são flor que se cheire. Admita uma má consciência, e eu admito ter uma consciência boa.
– Não negamos nossa História.
– Negam, negam. Seus anais mentem mais do que os nossos velhos. Vocês civilizaram meio mundo a patadas, como nós. Só que nós não chamamos de civilização. Chamamos pelo seu nome exato. Talvez seja a vantagem de não ter uma escrita.
– Nos regeneramos! Hoje somos um império cristão.
– Isso depois de passar trezentos anos perseguindo os cristãos e atirando-os aos leões. Sempre desconfiei que os leões se enojaram primeiro.
– Está bem! Reconheço a nossa má consciência. Agora reconheça a sua boa.
– Feito!
– Você poupará Roma?
– Claro que não.
– Mas…
– Vossa Unguência, vocês levaram 300 anos para se converter e querem que eu me converta em três minutos? Dêem-nos tempo. Ainda temos uns bons cem anos de pilhagem pela frente até termos o bastante para nos tornarmos civilizados, talvez até cristãos. Ruct! Epa. O seu gramático não me fez bem. Volte para Roma e diga que eu sou pior do que ela pensa. Mais sujo, o que só aumentará sua virtude. E diga que não se preocupe, sempre haverá um bárbaro rondando as suas fronteiras, para sua maior glória e indignação. Sempre há.
Domingo, 18 de fevereiro de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.